A filosofia vai voltar, na prática, para o conteúdo curricular dos
alunos de ensino médio, depois de 47 anos fora dos currículos das
escolas de educação básica no país. No ano que vem, as escolas da rede
pública receberão pela primeira vez, desde a ditadura, livros didáticos
da disciplina para orientar o trabalho dos professores. Foi o regime
militar que baniu a filosofia das escolas.
Em 2008, uma lei trouxe de volta a filosofia e a sociologia como
disciplinas obrigatórias para os estudantes do ensino médio. A
professora Maria Lúcia Arruda Aranha ensinava filosofia em 1971 quando a
matéria foi extinta pelo governo militar. Hoje, é uma das autoras dos
livros que foram selecionados para serem distribuídos aos alunos da rede
pública pelo PNLD (Programa Nacional do Livro Didático).
"Ela desapareceu [a filosofia nas escolas] na década de 70 e reapareceu
como disciplina optativa em 1982. Mas, nesse meio tempo, eu continuava
dando aula em escola particular. A gente ensinava, só que o nome da
matéria não podia constar como filosofia", lembra.
Ela avalia que o país "demorou demais" para incluir as duas disciplinas
novamente entre as obrigatórias e ainda falta "muito chão" para que elas
sejam ministradas da forma adequada. Ainda faltam professores formados
na área já que, por muito tempo, não havia mercado de trabalho para os
licenciados e a procura pelo curso era baixa. Em 2009, 8.264
universitários estavam matriculados em cursos superiores de filosofia 78
vezes menos do que o total de alunos de direito.
Muitas vezes são profissionais formados em outras graduações como
história ou geografia que assumem a tarefa. Os livros didáticos devem
ajudar a orientar os docentes no ensino da filosofia. "O livro é muito
importante porque dá uma ordenação do conteúdo e propõe como o professor
pode trabalhar os principais conceitos, como o que é filosofia e a
história da filosofia. Mesmo o aluno formado na área, às vezes, não está
acostumado a dar aula para o ensino médio, não tem dimensão de como
chegar ao aluno que nunca viu filosofia na vida", explica.
A história da filosofia, as ideias dos principais pensadores como
Platão, Kant e Descartes, servem de base para ensinar aos jovens
conceitos básicos como ética, lógica e política. Mas Maria Lúcia
ressalta que é muito importante conectar o conteúdo com a realidade do
aluno para que ele "aprenda a filosofar".
"O professor deve apresentar o texto dos filósofos fazendo conexões com a
realidade daquele tempo em que o autor vive, mas também estimular o que
se pensa sobre aquele assunto hoje. Isso desenvolve a capacidade de
conceituação e a competência de argumentar de maneira crítica. Ele
aprende a debater, mas também a ouvir", compara.
Folha


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